A tonalidade escura das águas na orla de Santos, no litoral de São Paulo, é um tema recorrente entre moradores e turistas que frequentam a região. Frequentemente associada à poluição, a coloração, na verdade, é resultado de uma complexa dinâmica natural que envolve a geografia e a hidrografia da Baía de Santos. Compreender esse fenômeno é essencial para separar a percepção visual da real qualidade sanitária do mar.
A influência do sistema estuarino na coloração
Santos está inserida em um ecossistema estuarino, onde a água doce de rios e manguezais encontra o oceano. Esse encontro é o principal responsável pela aparência da água. Segundo a cientista ambiental Beatriz Fernandes, a cor escura é provocada por uma combinação de fatores, incluindo o transporte de sedimentos, matéria orgânica e minerais provenientes da Serra do Mar.
Os manguezais desempenham um papel fundamental nesse processo. A decomposição natural de folhas e matéria orgânica nesses ambientes libera pigmentos que alteram a coloração da água. Além disso, a erosão natural das rochas da serra libera sedimentos minerais escuros que, ao chegarem à costa, intensificam o tom acinzentado característico da região, diferenciando-a de praias com fundo de areia clara e menor influência fluvial.
Dinâmica ambiental e variações sazonais
A cor do mar santista não é estática. Ela oscila conforme as condições climáticas e oceanográficas, como marés, ventos e correntes marítimas. Em períodos de estiagem prolongada, quando o aporte de sedimentos dos rios diminui, é comum observar a água com uma tonalidade mais clara. Por outro lado, chuvas intensas e frentes frias aumentam a carga de materiais transportados, alterando novamente a aparência visual do mar.
É importante destacar que a aparência visual não serve como critério para avaliar a balneabilidade. Como explica a especialista, um mar de cor escura pode estar próprio para banho, enquanto águas cristalinas podem esconder contaminação microbiológica invisível a olho nu. A segurança do banhista depende exclusivamente de análises laboratoriais técnicas.
Monitoramento e qualidade da água
A responsabilidade pelo monitoramento da qualidade das águas no estado de São Paulo cabe à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). O órgão realiza coletas semanais em sete pontos estratégicos de Santos, utilizando como base a concentração de enterococos, conforme os critérios da Resolução Conama nº 274/2000. A classificação “própria” ou “imprópria” considera a média das últimas cinco semanas de coleta.
Embora a Cetesb aponte que a qualidade microbiológica de Santos seja historicamente desafiadora — devido à alta densidade populacional e ao lançamento de esgotos —, os dados mais recentes indicam uma melhora gradual. Desde 2023, observa-se um aumento nos trechos classificados como regulares e uma redução nas condições mais críticas, fruto de investimentos em saneamento e gestão urbana.
Desafios contemporâneos e preservação
Além da questão da balneabilidade, o ambiente marinho de Santos enfrenta desafios estruturais, como a presença de microplásticos. Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revelou níveis significativos de contaminação por fibras têxteis em organismos marinhos, reforçando a necessidade de políticas públicas voltadas ao tratamento de efluentes e à conservação dos manguezais.
Para garantir um lazer seguro, a recomendação oficial é sempre consultar o boletim de balneabilidade da Cetesb antes de entrar no mar. Evitar banhos nas 24 horas seguintes a chuvas fortes e manter o descarte correto de resíduos são atitudes simples que ajudam a preservar a saúde pública e o ecossistema local.
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