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Acervo da Unicamp guarda documento de interrogatório e emociona sobrevivente da ditadura

Sobrevivente da ditadura militar encontra registro do próprio interrogatório em acervo histórico da Unicamp em emocionante reencontro com o passado.
Acervo da Unicamp guarda documento de interrogatório e emociona sobrevivente da ditadura
Foto: Reprodução/EPTV

Durante décadas, Robêni Baptista da Costa carregou na memória as lembranças mais difíceis do período em que sofreu tortura durante a ditadura militar brasileira. Os choques elétricos, o medo constante e os interrogatórios severos nunca desapareceram de suas recordações. No entanto, o que ela não sabia era que parte dessa trajetória dolorosa também estava preservada em documentos guardados pela Universidade Estadual de Campinas, conhecida como Unicamp.

O reencontro com o passado ocorreu quando Robêni, atualmente aposentada, conheceu a bibliotecária Joana Bernadete de Campos, funcionária dedicada à guarda de documentos históricos da instituição de ensino. Entre fotografias e papéis antigos guardados no acervo, estava exatamente o registro impresso de um dos interrogatórios a que ela foi submetida durante o regime militar.

O impacto do reencontro com o arquivo histórico

Diante do documento recuperado, a emoção tomou conta do ambiente. Para a sobrevivente, a descoberta representou muito mais do que a leitura de velhas páginas; significou a prova material de uma existência que os censores tentaram silenciar.

Aquele momento uniu duas trajetórias em Campinas. De um lado, uma mulher marcada pela violência do Estado; do outro, uma profissional que dedicou décadas a assegurar que a memória coletiva do país não fosse apagada pelo tempo ou pelo esquecimento institucional.

O episódio integrou produções jornalísticas especiais voltadas a destacar o papel da universidade pública na preservação da história nacional e na transformação da sociedade brasileira ao longo de suas seis décadas de fundação.

A memória estudantil e a dedicação aos arquivos

Na época da ditadura, Robêni estudava na Unicamp e integrou mobilizações estudantis que marcaram o início da década de 1970 no campus universitário. O reencontro com esses vestígios documentais décadas depois trouxe à tona sentimentos de gratidão pelo trabalho de preservação realizado nos bastidores acadêmicos.

A bibliotecária responsável por guardar os papéis atua na instituição há dezenas de anos, tendo passado por diferentes funções até consolidar sua carreira no setor de arquivos. É entre papéis antigos e frequentemente deteriorados que a profissional encontra sentido em sua rotina diária.

Para a aposentada, a existência desse trabalho impede que teses negacionistas ganhem espaço na sociedade contemporânea, reforçando que os registros documentais funcionam como barreiras intransponíveis contra a tentativa de apagar abusos estatais do passado.

Vestígios da violência e os centros de repressão

As lembranças mais duras de Robêni remetem ao DOI-Codi, localizado na capital paulista, reconhecido como um dos principais e mais violentos polos de repressão política e tortura do regime. No local, submetida a sessões intensas de choques elétricos, ela enfrentou abusos físicos extremos durante os interrogatórios conduzidos pelos agentes da ditadura.

Anos mais tarde, escavações arqueológicas realizadas no antigo prédio trouxeram à tona objetos pessoais e fragmentos que ajudam a desenhar o cotidiano dos prisioneiros. Esses achados materiais, somados aos testemunhos de sobreviventes, formam o conjunto probatório necessário para compreender a extensão da violência praticada pelo Estado brasileiro naquele período.

O papel da universidade na guarda do passado

Fundada em pleno regime militar, a Unicamp construiu ao longo dos anos um patrimônio documental expressivo, que abrange desde a história política do país até manuscritos raros de séculos passados. Especialistas apontam que os acervos funcionam como espaços fundamentais de escuta e preservação da memória daqueles que sofreram perseguições.

Atualmente vivendo com tranquilidade em Campinas, a sobrevivente reflete sobre a importância de manter essas narrativas acessíveis para as futuras gerações, garantindo que a própria trajetória continue viva na história do país.

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