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Inquérito da Polícia Civil sobre Pms armados em escola por desenho de orixá gera debate em SP

intolerância - Polícia Civil conclui que PMs seguiram protocolo ao entrar armados em escola de SP após denúncia sobre desenho de orixá, gerando debate.
Montagem/g1
Reprodução G1

A Polícia Civil de São Paulo concluiu que os policiais militares envolvidos em uma ocorrência na EMEI Antônio Bento, na Zona Oeste da capital, agiram conforme o protocolo da corporação. O caso, que ganhou repercussão nacional, envolveu a entrada de PMs armados em uma escola de educação infantil após a denúncia de um pai sobre um desenho da orixá Iansã feito por sua filha. No entanto, a conclusão do inquérito levanta questionamentos, especialmente porque foi finalizado antes da análise completa das imagens das câmeras corporais dos agentes.

O episódio, ocorrido em novembro do ano passado, mobilizou 12 policiais, um deles portando um fuzil, para atender a uma suposta ocorrência de intolerância religiosa. O pai da criança, um soldado da PM, alegou que a escola estaria impondo “aula de religião africana” à sua filha de apenas 4 anos, desencadeando uma série de eventos que colocam em xeque a atuação policial em ambientes educacionais e a transparência de seus procedimentos.

A Intervenção Policial e a Denúncia de Intolerância Religiosa em Escola de SP

A denúncia do pai da aluna resultou em uma intervenção policial de grande porte na EMEI Antônio Bento. As imagens das câmeras corporais, posteriormente obtidas pelo g1.globo.com, revelam que o tenente Ronald Camacho, comandante da equipe, confrontou a então diretora da escola, acusando-a de tentar “ditar sua ideologia” ao explicar as atividades pedagógicas sobre cultura afro-brasileira. A presença de um fuzil, embora a Secretaria da Segurança Pública (SSP) tenha justificado que o armamento foi mantido em posição segura e sem manuseio ostensivo, gerou preocupação e debate sobre a adequação do efetivo e do tipo de armamento em um ambiente escolar infantil.

A SSP argumentou que o porte do fuzil pelo tenente é uma obrigação funcional e segue protocolos de segurança operacional, proibindo o oficial de deixar o armamento letal na viatura para evitar extravio. Contudo, a cena de policiais armados, incluindo um com fuzil, dentro de uma escola de educação infantil para tratar de uma questão pedagógica e religiosa, levantou críticas de especialistas em segurança pública e da comunidade.

O Inquérito da Polícia Civil e as Discrepâncias nas Câmeras Corporais

O inquérito da Polícia Civil, que concluiu pela conformidade da atuação policial, foi encerrado em fevereiro, antes que a análise completa das 3 horas e 37 minutos de gravação das câmeras corporais fosse realizada. Segundo o delegado Saulos Ramos Furquim, responsável pelo inquérito, a PM forneceu apenas um relatório com frames da câmera, sem descrever a discussão entre a diretora e o tenente Ronald, nem as acusações de doutrinação ou imposição ideológica.

Essa lacuna é crucial, pois a versão apresentada pelo tenente Ronald em depoimento, de que o atendimento transcorreu “sem qualquer tipo de agressividade”, contrasta com as imagens que mostram o oficial discutindo com a diretora e afirmando: “A senhora quis impor e ditar as suas regras, ditar o seu pensamento, ditar a sua ideologia. Não vou conversar com a senhora hoje. E se tiver alguma medida, eu tomarei e voltarei aqui com uma medida administrativa”. A falta de uma análise integral das provas visuais no momento da conclusão do inquérito levanta sérias dúvidas sobre a profundidade da investigação.

Debate sobre Abuso de Poder e a Transparência Policial

Para Roberto Uchôa, ex-policial federal e conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o episódio pode ser classificado como abuso de poder. “De forma alguma faz sentido você ter policiais militares em grande quantidade armados com armas, inclusive letais, dentro de uma escola pra você tratar de uma ocorrência que não envolve qualquer nível de violência”, afirma Uchôa. Ele também critica a falta de transparência nos protocolos que orientam a atuação policial em situações como essa.

Uchôa ressalta que, em uma democracia, as forças de segurança devem ter maior transparência em seus procedimentos, algo que, segundo ele, não se observa neste caso. A ausência de clareza sobre os parâmetros de atuação policial dificulta o controle social e pode favorecer a repetição de condutas questionáveis, fragilizando a relação entre polícia e sociedade. O especialista ainda questiona a postura do comandante, que, em sua avaliação, agiu com base em convicções pessoais, e não como representante de um Estado laico, além de duvidar se o mesmo efetivo seria mobilizado caso o denunciante não fosse um integrante da corporação.

O Contexto Pedagógico e a Legislação Educacional Brasileira

A diretora da EMEI Antônio Bento explicou que a atividade pedagógica fazia parte de um projeto baseado nas leis federais 10.639/2003 e 11.645/2008, que tornam obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas. Ela esclareceu que o trabalho não se tratava de ensino religioso, mas de uma abordagem cultural e literária da mitologia dos orixás, a partir do livro infantil “Ciranda de Aruanda”, integrante do acervo da rede municipal.

Apesar da explicação, o tenente insistiu na interpretação de que o conteúdo tinha caráter religioso, citando uma lei federal para sustentar o direito do pai de se opor. A discussão se intensificou quando a diretora questionou a presença de um grande efetivo policial armado em uma escola infantil para uma denúncia de um pai que sequer estava no local no momento da abordagem. Este ponto é crucial para entender a desproporcionalidade da resposta policial e a tensão gerada em um ambiente que deveria ser de acolhimento e aprendizado.

A Posição da Secretaria da Segurança Pública e os Desdobramentos

A Polícia Militar, por meio da Secretaria da Segurança Pública (SSP), reafirma que a atuação dos agentes seguiu os protocolos da corporação, com o armamento mantido em posição segura. A pasta também informa que os agentes recebem treinamento para atuar em ocorrências de intolerância religiosa e desinteligência, buscando soluções consensuais e orientando as partes. No entanto, o caso continua a gerar discussões sobre a necessidade de protocolos mais claros e adaptados para intervenções em ambientes sensíveis como escolas.

Para os moradores do Bairro do Ipiranga e de toda São Paulo, este episódio ressalta a importância do debate sobre a atuação das forças de segurança, a defesa de um Estado laico e o respeito à diversidade cultural e religiosa nas escolas. É fundamental que as instituições públicas garantam a segurança e o bem-estar de todos, sem que a ação policial se transforme em um fator de intimidação ou violação de direitos.

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