Em uma quinta-feira à noite, a sala de uma casa de jogos em Moema, na Zona Sul de São Paulo, transformou-se em um cenário terapêutico inusitado. Quatro adolescentes e dois adultos, aparentemente em uma noite de diversão entre amigos, estavam, na verdade, participando de uma sessão de acompanhamento terapêutico. Lanches, bebidas e risadas acompanhavam as partidas de jogos como Coup, Dixit e Saboteur, em um ambiente que, à primeira vista, pouco lembrava um consultório.
Os jovens, com idades entre 15 e 17 anos, estavam em tratamento para transtornos como TDAH e ansiedade, além de dificuldades de socialização. Os adultos eram um psicólogo e um acompanhante terapêutico. O objetivo central dessa abordagem inovadora é retirar os pacientes do ambiente tradicional do consultório e inseri-los em situações cotidianas, estimulando habilidades essenciais como comunicação, convivência social, trabalho em equipe e tolerância à frustração de maneira espontânea e prática.
Uma Nova Abordagem para o Tratamento de Adolescentes em SP
O acompanhamento terapêutico (AT) é uma modalidade de tratamento que transcende os limites físicos do consultório. Ele pode ocorrer em diversos ambientes, como escolas, shoppings, parques, academias ou, como no caso acompanhado pelo g1, em uma mesa de jogos. Essa flexibilidade permite que a intervenção seja adaptada às necessidades específicas de cada paciente, levando a terapia para o seu ambiente natural, onde as dificuldades se manifestam de forma mais autêntica.
Segundo o psicólogo Rafael Baptista de Melo, diretor da clínica Revitaliz e responsável pela organização do encontro, a escolha do ambiente e da atividade nunca é aleatória. “Onde a gente vai e o que a gente vai fazer já faz parte da estratégia de intervenção, levando em conta as demandas daquela pessoa”, explica Melo. Essa personalização é crucial para que o tratamento seja eficaz e relevante para a realidade do adolescente.
Jogos e Interação: Ferramentas Terapêuticas no Cotidiano
Na noite de jogos em Moema, os títulos escolhidos tinham propósitos bem definidos. Em Saboteur, por exemplo, os participantes precisam lidar com a desconfiança e a frustração de estratégias que podem dar errado, enquanto tentam identificar um sabotador. O jogo Coup, por sua vez, exige blefe e estratégia para alcançar a vitória, estimulando a capacidade de leitura social e a tomada de decisões sob pressão. Já Dixit desafia a criatividade e a interpretação de imagens surrealistas, promovendo a comunicação não verbal e a empatia.
Durante uma partida de Saboteur, um dos adolescentes, mesmo fazendo parte do time colaborativo, optou por blefar apenas pela diversão de observar as reações dos colegas, demonstrando uma exploração de comportamentos sociais em um ambiente seguro. Outro jovem, que morava nos Estados Unidos e nunca havia jogado tabuleiro, conseguiu se desconectar do celular, expressando o desejo de encontrar uma versão em inglês para compartilhar com seus amigos, um claro sinal de engajamento e interesse em novas formas de socialização.
Acompanhamento Terapêutico: História, Crescimento e Benefícios
Embora presente no Brasil desde as décadas de 1970 e 1980, o acompanhamento terapêutico ainda é uma modalidade pouco conhecida. No entanto, especialistas observam um aumento significativo na procura nos últimos anos, especialmente entre adolescentes. O psicólogo Germano Henning, mestre em Psicologia Clínica pela USP e com vasta experiência na área, destaca o principal diferencial do AT: a possibilidade de observar o paciente em situações reais do dia a dia.
“No consultório, a gente trabalha com o que o paciente conta sobre o que aconteceu. Quando você vai para o ambiente real, consegue observar aquele comportamento acontecendo, entender como ele reage às situações e identificar interpretações ou dificuldades que talvez não aparecessem apenas na conversa”, detalha Henning. Essa observação direta permite uma intervenção mais precisa e contextualizada, funcionando como uma extensão do tratamento e facilitando a aplicação prática do que é discutido nas sessões. O objetivo primordial, segundo os especialistas, é sempre focar na autonomia do paciente, e o AT se mostra uma ponte eficaz para esse desenvolvimento.
Desafios da Era Digital e o Resgate das Habilidades Sociais
O aumento da procura pelo acompanhamento terapêutico entre adolescentes está intrinsecamente ligado às transformações nas relações sociais impulsionadas pela era digital. Celulares, computadores e videogames concentram grande parte das atividades diárias dos jovens, reduzindo as oportunidades de interação presencial e, consequentemente, o desenvolvimento de habilidades sociais. “O que a gente tem hoje é uma centralização de atividades, tudo focado em tela. A tela veio mudando muito o comportamento. O perfil que eu vejo hoje é mais esse déficit comportamental ligado às habilidades sociais”, afirma Henning.
Mesmo na noite de jogos, os celulares estavam presentes na mesa, mas a atenção dos adolescentes era direcionada às cartas e à interação. Os aparelhos eram consultados apenas nos intervalos, retornando ao segundo plano quando a partida recomeçava. Esse é um dos objetivos do AT: criar oportunidades para que os adolescentes pratiquem habilidades sociais em ambientes reais, combatendo o “confinamento” digital e promovendo o engajamento no mundo físico. Além de intervir em problemas específicos, o acompanhamento terapêutico também fortalece o vínculo entre paciente e terapeuta, celebrando conquistas e valorizando a evolução do jovem.
Do Shopping à Banca de Jornal: A Versatilidade do Atendimento Fora do Consultório
A casa de jogos é apenas uma das muitas possibilidades do acompanhamento terapêutico. A escolha do local de intervenção é sempre personalizada, baseada nas necessidades e objetivos de cada paciente. Uma simples ida ao shopping, uma caminhada no parque, uma refeição em um restaurante ou até a compra de figurinhas em uma banca de jornal podem se tornar parte integrante da terapia. Para adolescentes mais tímidos, o psicólogo Rafael Melo, por exemplo, costuma ensaiar situações no consultório antes de vivenciá-las no mundo real.
“Já fui algumas vezes com adolescentes a uma banca de jornal comprar figurinhas. Antes, a gente ensaia no consultório. Eu faço o papel do vendedor, explico como pode ser a conversa e até combinamos um código para o caso de ele ficar muito ansioso e precisar da minha ajuda”, relata Melo. Essa preparação e o suporte contínuo do terapeuta permitem que o paciente pratique habilidades sociais em situações cotidianas, ganhando confiança gradualmente. O psicólogo aproveita os espaços ao redor de seu consultório em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, transformando parques, pistas de corrida, shoppings e restaurantes em “espaços terapêuticos”. Para Henning, essas interações aparentemente simples – como fazer uma compra ou pedir uma informação – são fundamentais para que o adolescente ganhe confiança e autonomia para enfrentar desafios maiores na vida. A intervenção comportamental foca intensamente na independência e na autonomia, pilares do acompanhamento terapêutico.
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