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Tarifas dos EUA: Balança comercial brasileira tem impacto restrito, mas setores da indústria sofrem

Tarifas dos EUA devem ter impacto limitado na balança comercial brasileira, mas setores como aço e calçados sentirão os efeitos.
Tarifas dos EUA: Balança comercial brasileira tem impacto restrito, mas setores da indústria sofrem

As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre uma gama de produtos brasileiros prometem gerar efeitos limitados na balança comercial do Brasil como um todo. Contudo, a medida, que afeta cerca de 18% das exportações nacionais para o mercado estadunidense, deve provocar impactos significativos em setores específicos da indústria, que já se preparam para sentir a perda de competitividade.

Especialistas ouvidos pela Agência Brasil em julho de 2026 indicam que as áreas mais vulneráveis são aquelas com alta dependência do mercado americano e pouca flexibilidade para redirecionar suas vendas para outros países. Entre os segmentos que devem enfrentar os maiores desafios estão máquinas, aço, alumínio, calçados e automóveis, bens de maior valor agregado que são cruciais para a geração de empregos no país.

Impacto Concentrado na Indústria Nacional

Apesar de o efeito macroeconômico na balança comercial ser considerado restrito, a preocupação se volta para a indústria nacional. José Augusto de Castro, presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), ressalta que o maior prejuízo será para o setor de manufaturados.

“Nós temos um superávit comercial grande, mas um déficit comercial de manufaturados gigantesco. Esse déficit é que preocupa, porque é o setor manufatureiro que gera emprego no Brasil”, explica Castro. As novas barreiras tarifárias, ao atingir diretamente esses produtos, podem abrir espaço para concorrentes internacionais que antes não exportavam para os EUA, alterando a dinâmica do mercado.

Lia Valls, pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), corrobora essa visão. Ela afirma que os efeitos serão sentidos principalmente por empresas e setores industriais mais dependentes do mercado americano, como máquinas, equipamentos, madeira e calçados.

Cenário da Balança Comercial Brasil-EUA

Os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) referentes ao primeiro semestre de 2026 revelam um cenário de recuo no comércio bilateral. O Brasil registrou um déficit de US$ 1,5 bilhão com os Estados Unidos, importando mais do que exportou. As trocas comerciais totais somaram US$ 36,4 bilhões, uma queda de 12,8% em comparação com o mesmo período do ano anterior.

As exportações brasileiras para os EUA caíram 13%, atingindo US$ 17,4 bilhões, enquanto as importações de produtos americanos recuaram 12,5%, totalizando US$ 19 bilhões. Embora as exportações em junho tenham crescido 3,7%, alcançando US$ 3,47 bilhões, esse resultado foi impulsionado principalmente pela alta de 11% nos preços médios, e não pelo volume embarcado, que na verdade diminuiu 6,6%.

Por Que o Efeito Agregado é Limitado?

A principal razão para o impacto limitado na balança comercial geral do Brasil, segundo os especialistas, é a mudança na composição das exportações brasileiras. A participação dos Estados Unidos como destino das exportações nacionais caiu para cerca de 9,4%, com a Ásia, especialmente a China, tornando-se o principal mercado.

Lia Valls destaca que o superávit comercial brasileiro é hoje “derivado exclusivamente das commodities”, como soja, suco de laranja e carnes. José Augusto de Castro complementa que o tarifaço poupou justamente esses bens primários com cotação internacional, com os quais o Brasil compete com os Estados Unidos, minimizando o impacto no saldo geral.

Motivações Políticas e o Debate sobre Retaliação

A escalada das tarifas americanas, na avaliação de Lia Valls, transcendeu critérios puramente econômicos e passou a incorporar argumentos políticos. A economista aponta que, ao contrário da maioria dos países, o Brasil mantém um déficit comercial com os Estados Unidos, o que torna a justificativa econômica para as sobretaxas menos evidente.

Temas como decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), a regulamentação das plataformas digitais, o Pix e políticas ambientais teriam sido utilizados como justificativas para ampliar as sanções comerciais, indicando uma dimensão política mais profunda por trás das medidas.

Diante do cenário, o governo federal estuda recorrer à Lei da Reciprocidade Econômica para responder ao tarifaço. No entanto, especialistas veem poucos benefícios em uma retaliação direta. Lia Valls argumenta que o Brasil não possui capacidade para impor perdas significativas aos Estados Unidos, o que poderia reverter o dano contra o próprio país. Ela sugere que o caminho mais eficaz seria denunciar a medida e levar o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC).

José Augusto de Castro concorda, afirmando que o comércio internacional é pautado por negociações, não por retaliações. “O Brasil não tem cacife para retaliar os Estados Unidos. Temos tudo a perder e nada a ganhar. Na teoria, a reciprocidade parece adequada, mas, na prática, é muito difícil implementá-la”, adverte.

Produtos Sob a Mira das Tarifas

As tarifas foram impostas com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, um instrumento que permite aos Estados Unidos aplicar medidas comerciais unilaterais. Embora a alíquota-padrão seja de 25%, em 24% dos produtos atingidos, ela chega a 50%, resultado da soma com tarifas já existentes.

Entre os setores mais afetados estão aço, alumínio, automóveis, máquinas, equipamentos, calçados e produtos de madeira. Por outro lado, aeronaves, componentes aeroespaciais, petróleo, soja, café, carne bovina e suco de laranja ficaram de fora das sobretaxas, o que explica em parte o impacto limitado no superávit geral do Brasil.

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