A Seleção Brasileira se prepara para um confronto decisivo nas quartas de final da Copa do Mundo, que será realizado neste domingo (5), às 17h (horário de Brasília), em Nova Jersey (Estados Unidos). Além da busca pela classificação, o time canarinho tem uma missão dupla e histórica: quebrar dois tabus significativos que assombram sua trajetória em Mundiais. O primeiro é conquistar a primeira vitória na história contra a Noruega, um adversário que nunca foi superado pela Amarelinha. O segundo, e talvez mais desafiador, é voltar a vencer uma seleção europeia em um confronto eliminatório de Copa do Mundo, algo que não acontece desde a conquista do pentacampeonato em 2002.
Este jogo não é apenas mais uma etapa do torneio; ele representa a oportunidade de reescrever capítulos importantes da história do futebol brasileiro. A pressão é grande, mas a motivação, como destacam os próprios jogadores, é ainda maior para superar esses obstáculos e pavimentar o caminho rumo ao tão sonhado hexacampeonato.
O inédito desafio contra a Noruega
A Noruega detém um feito notável no histórico de confrontos com o Brasil: é a única seleção que a Amarelinha enfrentou e nunca conseguiu derrotar. Em quatro partidas disputadas, o retrospecto aponta dois empates e duas vitórias para o time nórdico, um dado que serve de alerta e, ao mesmo tempo, de combustível para a equipe brasileira.
O primeiro encontro ocorreu em 28 de julho de 1988, no Ullevaal Stadion, em Oslo. A partida terminou em 1 a 1, com gols de Jan Age Fjortoft para os noruegueses e Edmar, medalhista de prata nas Olimpíadas de Seul, para o Brasil. Naquele time brasileiro, comandado por Carlos Alberto Silva, figuravam futuros tetracampeões mundiais como Taffarel, Jorginho e Romário. Curiosamente, a equipe norueguesa da época contava com jogadores cujos filhos hoje são nomes de destaque, como o goleiro Erik Thorstvedt, pai do meia Kristian Thorstvedt, e Goran Sorloth, pai do atacante Alexander Sorloth.
O reencontro aconteceu em 30 de maio de 1997, novamente em Oslo. O Brasil, então invicto por 42 meses e com a dupla Ronaldo e Romário no ataque, sofreu uma derrota por 4 a 2. Petter Rudi, Egil Ostenstad e Tore André Flo, que marcou duas vezes e se destacou com sua altura de 1,93 metro, foram os carrascos. Essa equipe também tinha conexões com o presente: o lateral Alf-Inge Haaland é pai do astro Erling Haaland, e o meia Stale Solbakken é o atual treinador da Noruega.
O terceiro duelo, e talvez o mais lembrado, foi na Copa da França de 1998, em Marselha. Pela fase de grupos, em 23 de junho, o Brasil de Zagallo abriu o placar com Bebeto, mas levou a virada com gols de Flo e Kjetil Rekdal, de pênalti. O confronto mais recente foi em 16 de agosto de 2006, em Oslo, terminando em 1 a 1, com gols de Morten Pedersen e Daniel Carvalho, na estreia de Dunga no comando técnico. O lateral brasileiro Douglas Santos expressou a expectativa: “Acho que isso [tabu contra a Noruega] pode servir para como motivação para que a gente possa tirar essa escrita. A gente espera que nesse jogo, que é tão especial para nós, possamos dar o melhor e sairmos felizes e contentes com a vitória.”
O jejum contra gigantes europeus em Copas
Além da Noruega, o Brasil enfrenta outro tabu significativo: a dificuldade de superar seleções da Europa em jogos eliminatórios de Copa do Mundo. A última vez que a Amarelinha conseguiu tal feito foi na final de 2002, quando venceu a Alemanha por 2 a 0, com dois gols de Ronaldo, garantindo o pentacampeonato em Yokohama, no Japão. Desde então, a sequência de eliminações contra equipes europeias tem sido dolorosa e traumática para os torcedores.
A série negativa começou em 2006, na Copa da Alemanha. Nas quartas de final, o Brasil reencontrou a França. Apesar da sede de revanche pela final de 1998, a genialidade de Zinedine Zidane foi decisiva, e um gol de Thierry Henry eliminou os então campeões mundiais, dirigidos por Carlos Alberto Parreira, com uma derrota por 1 a 0 em Frankfurt.
Quatro anos depois, na África do Sul, a Holanda foi a algoz. Após um primeiro tempo promissor, com gol de Robinho, a seleção de Dunga sucumbiu na segunda etapa. A expulsão de Felipe Melo e dois gols de Wesley Sneijder selaram a virada holandesa por 2 a 1 em Port Elizabeth.
A queda mais dolorosa ocorreu em casa, na Copa de 2014. Apesar de ter chegado às semifinais, a equipe brasileira foi massacrada pela Alemanha em um inesquecível 7 a 1 no Mineirão, em Belo Horizonte. Gols de Thomas Müller, Miroslav Klose, Toni Kroos (dois), Sami Khedira e André Schürrle (dois) marcaram a tragédia, com Oscar descontando para o Brasil.
Em 2018, na primeira Copa da “era Tite”, a eliminação veio novamente nas quartas de final, com uma derrota por 2 a 1 para a Bélgica em Kazan, na Rússia. Um gol contra de Fernandinho e um chute de fora da área de Romelu Lukaku complicaram a vida brasileira, e o gol de Renato Augusto na etapa final não foi suficiente. Já na Copa anterior, em 2022, no Catar, a Croácia eliminou o Brasil nas quartas de final após um empate em 1 a 1 na prorrogação (gols de Neymar e Bruno Petkovic) e vitória nos pênaltis por 4 a 2, com Marquinhos perdendo a cobrança decisiva.
O atacante Matheus Cunha resumiu o sentimento da equipe: “Temos até certas conversas sobre o momento exato da eliminação [em edições anteriores] porque muitos dos nossos jogadores passaram por isso, mas é muito mais sobre não querer reviver aquele dia do que propriamente sobre o adversário ou a escola de onde ele vem, no caso a europeia. Para ganhar a Copa do Mundo, temos de passar por essas dificuldades. Que agora seja diferente e possamos contar uma outra história.”
A relevância do confronto atual
O jogo contra a Noruega em Nova Jersey transcende a simples busca por uma vaga nas quartas de final. Ele se torna um marco potencial para a Seleção Brasileira, uma chance de exorcizar fantasmas do passado e demonstrar uma nova mentalidade. Superar a Noruega pela primeira vez e, em seguida, quebrar o ciclo de eliminações contra europeus em fases decisivas, pode injetar uma confiança inestimável no elenco e na torcida, que anseia por um novo título mundial. A capacidade de lidar com a pressão e transformar a história em motivação será crucial para o desempenho da equipe neste domingo.
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