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Dermatite atópica: o impacto invisível na pele, sono e autoestima dos pacientes

Descubra como a dermatite atópica vai além da pele, afetando a saúde mental, o sono e a autoestima de milhares de brasileiros.
Dermatite atópica: o impacto invisível na pele, sono e autoestima dos pacientes

A dermatite atópica, uma condição inflamatória crônica da pele, transcende a barreira física e se manifesta como um desafio complexo que afeta profundamente a vida de seus portadores. Mais do que simples erupções cutâneas, a doença impacta o sono, a saúde mental e a autoestima, transformando o cotidiano em uma batalha constante contra a coceira intensa e as feridas que tornam a pele sensível ao menor toque. Desde o tecido da roupa até a água do banho, tudo pode se tornar uma fonte de dor e desconforto para quem convive com essa realidade.

Essa é a experiência de milhares de brasileiros que enfrentam a dermatite atópica, caracterizada por surtos de coceira extrema que, em suas manifestações mais severas, podem levar a lesões em carne viva. A doença, que muitas vezes se inicia na infância, persiste na vida adulta, exigindo um manejo contínuo e um suporte que vai além do tratamento dermatológico.

A Luta Diária Contra a Coceira e a Dor

Para a estudante de medicina Clara Emery, de 23 anos, a dermatite atópica é uma companheira desde a primeira infância. Ela relata que, em momentos de crise severa, precisou recorrer a antibióticos para prevenir infecções nas feridas que cobriam sua pele. A dor era tão intensa que atividades básicas, como deitar-se ou tomar banho, tornavam-se um martírio. “Tive muitas crises de choro por não saber o que fazer”, desabafa Clara, cuja mãe recorda que a condição já estava presente desde o seu nascimento.

A doença costuma se manifestar em regiões de dobras, como atrás dos joelhos, nos cotovelos e no pescoço. No caso de Clara, as lesões também aparecem ao redor dos olhos, na face e em áreas de maior fricção, como as mãos. Os gatilhos são variados e imprevisíveis, abrangendo desde certos alimentos até fatores ambientais como sol, grama, suor, fungos e ácaros. “Qualquer objeto de pelúcia, tapete, cachorro e gato. Eu sentia como se tivesse alergia ao mundo”, explica a estudante, que também identifica o estresse como um fator crucial para a exacerbação de suas alergias em diferentes fases da vida.

O Estigma Social e os Desafios Emocionais

Além do sofrimento físico, a dermatite atópica impõe uma carga emocional pesada, marcada pelo isolamento social e pelo preconceito. Clara Emery recorda momentos difíceis na escola, quando, aos 10 anos, era questionada por colegas se tinha hanseníase, sífilis ou HIV devido às feridas visíveis em seu corpo. “Havia muito preconceito”, lamenta a jovem, que hoje busca um tratamento imunobiológico para controlar as crises mais graves.

A dermatologista Rosana Lazzarini corrobora que o impacto da dermatite atópica na qualidade de vida é imenso. A coceira incessante compromete o sono, resultando em menor rendimento escolar e profissional. Estima-se que 40% das crianças diagnosticadas com a doença continuarão a conviver com ela na vida adulta. A doença carrega um forte estigma social, apesar de não ser contagiosa, e as marcas visíveis frequentemente levam ao afastamento do convívio social e podem ser motivo de bullying.

“O impacto na vida da criança é grande. É uma doença crônica, há frequência de consultas, perda de aulas, afastamento social (deixa de brincar, de ir a festas) e internações que irão afetar o desenvolvimento psicossocial”, afirma a especialista. O presidente da Associação de Apoio à Dermatite Atópica (AADA), Roberto Takaoka, reforça que o desconhecimento público leva a problemas de preconceito e bullying, especialmente pela falsa crença de que a doença é contagiosa. Ele destaca que a condição é frequentemente acompanhada por distúrbios do sono, depressão e isolamento social.

A jornalista Rayane Lopes, de 34 anos, moradora do Recanto das Emas, no Distrito Federal, também vivencia os efeitos da dermatite atópica desde os 18 anos. Ela observa que as manchas e a coceira intensa surgem principalmente em períodos de grande estresse. Após o enterro de uma pessoa próxima, por exemplo, seu corpo foi tomado por manchas avermelhadas e feridas. “Tenho várias manchas e cicatrizes pelo corpo. Quando está forte, tomo um corticóide que alivia”, conta Rayane, que busca formas de controlar a doença no dia a dia.

Tratamento e a Importância da Conscientização sobre a Dermatite Atópica

O tratamento da dermatite atópica varia conforme a gravidade e a resposta individual. Clara Emery encontrou alívio em um medicamento imunobiológico que atua no sistema imune para modular as reações exacerbadas do corpo. Contudo, o custo é elevado, ultrapassando os R$ 10 mil por caixa, valor que, no caso dela, é coberto pelo plano de saúde. “Nunca tive tanta paz para conviver com essa doença porque era algo muito difícil”, declara Clara, após anos de tentativas com corticoides, pomadas e abordagens homeopáticas.

Em reconhecimento à relevância do tema e à necessidade de combater o preconceito, o dia 23 de setembro foi oficializado no Brasil como o Dia Nacional de Conscientização da Dermatite Atópica pela Lei 14.916/24. Essa iniciativa visa informar a população e desmistificar a doença.

Roberto Takaoka, da AADA, explica que as famílias frequentemente buscam “tratamentos rápidos e milagrosos”, sem compreender que a dermatite atópica é uma condição crônica, com fases de melhora e piora, que na maioria dos casos tende a atenuar com a idade. Ele enfatiza a complexidade multifatorial da doença, que é influenciada por aspectos físicos, emocionais e sociais. A AADA atua promovendo a saúde dos pacientes por meio da arte, ciência e educação, oferecendo grupos de apoio para pacientes e familiares, além de materiais educativos, campanhas de conscientização e podcasts explicativos. A associação também colabora com profissionais de saúde, fornecendo informações e conhecimento atualizados.

Compreender a dermatite atópica é o primeiro passo para oferecer suporte adequado e construir uma sociedade mais empática. A conscientização é fundamental para que pacientes como Clara e Rayane possam viver com mais dignidade e menos sofrimento, sabendo que não estão sozinhos nessa jornada.

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