Um reencontro com a história nos gramados
A classificação da seleção do Haiti para a Copa do Mundo, após um hiato de 52 anos, provocou uma onda de emoção e orgulho entre a comunidade haitiana espalhada pelo mundo. Em São Paulo, onde a presença de imigrantes do país caribenho é marcante, a conquista ganha contornos especiais. O destino reservou um encontro emblemático: os “Grenadiers”, como é conhecida a seleção haitiana, enfrentarão justamente o Brasil, país que por décadas foi uma referência futebolística e um porto seguro para milhares de haitianos que buscaram uma nova vida em solo brasileiro.
Para muitos imigrantes, o confronto de sexta-feira transcende o esporte. Fedo Baccourt, pesquisador da USP e fundador da União Social dos Imigrantes Haitianos, organização sediada na capital paulista desde setembro de 2014, resume o sentimento coletivo. “A torcida primeiro será para o Haiti, lógico. Nós somos ligados à nossa bandeira e história. Espero que os jogadores joguem pela bandeira. A honra vai cantar mais alto do que o amor”, afirma Baccourt, que reside no Brasil há 13 anos.
Identidade, raízes e a força da superação
Apesar da forte integração cultural e familiar de muitos haitianos com o Brasil — Baccourt, por exemplo, destaca que suas filhas nasceram aqui e sua esposa é brasileira de coração —, a lealdade à pátria de origem permanece inabalável. O pesquisador assistirá à partida na Missão Paz São Paulo, instituição que é referência no acolhimento de refugiados e imigrantes na região central da cidade, ao lado de sua família.
O otimismo dos torcedores, embora reconheça a disparidade técnica entre as seleções, baseia-se em um simbolismo histórico profundo. Baccourt traça um paralelo entre o futebol e a própria trajetória de independência do Haiti. “A gente acredita na luta e força dos haitianos. Fomos o primeiro país livre da escravidão. Ninguém imaginava que o Haiti derrotaria Napoleão Bonaparte. A gente acredita com esse espírito”, reflete, mantendo viva a esperança de um resultado surpreendente em campo.
Presença haitiana no cenário paulistano e nacional
A comunidade haitiana mantém uma presença consolidada no Brasil, embora os dados mais recentes do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) indiquem uma estabilidade nos registros de residência. Em 2024, o país contabilizou cerca de 6 mil novos registros anuais, mantendo o Haiti como um dos grupos de imigração mais relevantes no território nacional, com forte predominância de vistos por reunião familiar e acolhida humanitária.
Na capital paulista, o impacto dessa presença é visível na rede pública de serviços. Segundo dados da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), até 2025, a cidade contava com 38.070 haitianos cadastrados. O Haiti ocupa a quarta posição entre as nacionalidades mais atendidas pela rede municipal de saúde, ficando atrás apenas de Bolívia, Angola e Venezuela, o que demonstra a importância de políticas públicas voltadas para o acolhimento e a integração desses cidadãos.
O papel do imigrante no mercado de trabalho
Além da saúde, a inserção no mercado de trabalho formal é outro pilar fundamental da vida dos haitianos no Brasil. O relatório do OBMigra aponta que, em 2024, eles figuraram como a segunda nacionalidade em movimentação no mercado formal. Embora tenham ocupado o quarto lugar na geração total de postos de trabalho, sua participação é constante, contribuindo para o recorde de 70 mil empregos criados para imigrantes no país desde 2010.
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