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Einstein mapeia 11 anos de hepatites virais e desafios para meta de 2030

Estudo do Einstein sobre hepatites virais traça panorama em 11 anos, revelando desafios e caminhos para a meta de eliminação no Brasil até 2030.
Einstein mapeia 11 anos de hepatites virais e desafios para meta de 2030

Um estudo abrangente, conduzido por pesquisadores do Einstein Hospital Israelita, lançou luz sobre o cenário das hepatites virais no Brasil, analisando dados coletados ao longo de um período de onze anos, entre 2013 e 2024. A pesquisa, que compilou informações de mais de 14,5 milhões de pessoas a partir de 200 trabalhos científicos, oferece um panorama detalhado das hepatites A, B, C, D e E, essenciais para o desenvolvimento de estratégias de saúde pública.

Este levantamento faz parte do projeto “Caracterização de Hepatites Virais em Populações Vulnerabilizadas”, uma iniciativa do Einstein no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS). O principal objetivo é gerar conhecimento robusto que possa fortalecer as ações de prevenção e cuidado, pavimentando o caminho para que o Brasil alcance a ambiciosa meta de eliminar as hepatites virais até o ano de 2030. Os resultados completos foram publicados na renomada revista científica internacional PLOS ONE, conferindo credibilidade e alcance global à descoberta.

Hepatite A: O Retorno de uma Ameaça Prevenível

A hepatite A, embora seja uma doença aguda e prevenível por vacinação, tem demonstrado um preocupante ressurgimento no Brasil. O coordenador do estudo, João Renato Rebello Pinho, médico do Departamento de Patologia Clínica do Einstein, destacou que a doença voltou a se manifestar na população brasileira, impulsionada principalmente pela transmissão entre homens que fazem sexo com outros homens (HSH) através do contato oral/anal. Esse comportamento, inicialmente restrito a grupos específicos, rapidamente se espalhou para populações não vacinadas.

Pinho enfatiza a importância da vacinação como medida preventiva crucial, alertando que mulheres que praticam sexo oral/anal também estão suscetíveis. Apesar da nova rota de transmissão, a forma mais comum de contaminação pelo vírus da hepatite A continua sendo por via alimentar, através de água ou alimentos contaminados. O especialista esclareceu que o contágio de pessoa para pessoa exige um contato muito íntimo, descartando a transmissão casual em ambientes públicos como ônibus ou ruas. Regionalmente, a hepatite A de transmissão oral/fecal é prevalente na Amazônia e nas regiões Norte e Nordeste, enquanto o fenômeno ligado ao comportamento sexual é mais observado no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde a vacinação para adultos acima de 18 anos ainda não é gratuita.

Hepatites B e C: Prevenção, Tratamento e Desafios

Para as hepatites B e C, as principais vias de transmissão incluem o contato sexual e o contato com sangue ou produtos sanguíneos, especialmente o uso de drogas endovenosas. A transmissão de mãe para filho durante a gestação e o parto também é uma preocupação, embora o Brasil tenha avançado significativamente no controle da transmissão da hepatite B e do HIV por essa via, tornando-a rara atualmente.

A vacina contra a hepatite B é um pilar fundamental na prevenção, especialmente porque, ao contrário da hepatite A, a hepatite B pode se tornar crônica e está associada a condições graves como cirrose e câncer de fígado. Existem tratamentos altamente eficazes para a hepatite B. Já para a hepatite C, apesar de não haver vacina, os tratamentos atuais são revolucionários, curando mais de 95% dos pacientes. Rebello Pinho reforça a importância do sexo seguro e da prevenção do contato com sangue contaminado, especialmente no contexto do uso de drogas injetáveis. Ele também ressaltou que a transmissão por transfusão de sangue e seringas compartilhadas, antes comum, é hoje muito rara devido aos avanços nos protocolos de segurança.

Hepatite D na Amazônia: Uma Doença Negligenciada

A hepatite D, ou Delta, é uma doença frequentemente negligenciada, afetando principalmente populações de baixo nível socioeconômico e de difícil acesso, como as comunidades ribeirinhas da região amazônica. Essa negligência resulta em diagnósticos tardios e tratamentos inadequados. O médico explicou que a hepatite D só se manifesta em indivíduos que já são portadores do vírus da hepatite B, podendo ser adquirida simultaneamente ou após a infecção por hepatite B.

Na Amazônia, a coinfecção por hepatites B e D é um grave problema de saúde pública, levando a quadros mais severos, incluindo hepatites agudas fulminantes e crônicas que evoluem para cirrose e câncer de fígado. Embora a vacina contra a hepatite B seja eficaz na prevenção da hepatite D, a complexidade logística e social da região dificulta a erradicação. Rebello Pinho classificou a hepatite D como uma doença rara no contexto geral, mas com alta frequência e mortalidade nos grupos populacionais afetados, sendo um exemplo claro de doença negligenciada devido à falta de diagnóstico e à dificuldade de acesso a tratamentos.

Hepatite E: A Zoonose Silenciosa

Menos conhecida no Brasil, a hepatite E foi inicialmente descrita na Índia, onde causa epidemias graves. No Brasil e na Europa, a doença é causada por um genótipo diferente, encontrado em animais, caracterizando-a como uma zoonose. O porco é um dos principais vetores, e estudos já confirmam a presença de suínos infectados no país. A noção de “saúde única”, que integra a saúde humana e animal, é crucial para combater essa forma de hepatite.

A pesquisa indicou que o Sul do Brasil, por concentrar uma maior criação de suínos, pode apresentar uma prevalência ligeiramente maior de hepatite E. Contudo, essa forma da doença é geralmente menos grave que as demais, sendo aguda e muitas vezes passando despercebida. Ainda assim, a hepatite E demanda mais estudos no contexto brasileiro para compreender sua real dimensão e impacto na saúde pública.

Panorama da Prevalência e Populações Vulneráveis

Dos 200 estudos analisados, a hepatite B foi a mais investigada, seguida pela hepatite C. A soroprevalência da hepatite A na população geral variou entre 33,3% e 67,8%. Em populações vulneráveis, os números foram ainda mais alarmantes: a maior soroprevalência foi observada entre populações encarceradas (88,1%), seguidas por imigrantes (87,4%) e indivíduos transgêneros (75,6%). Esses dados sublinham a necessidade de políticas de saúde direcionadas e inclusivas para combater a doença em todos os estratos da sociedade.

O estudo do Einstein Hospital Israelita é um marco fundamental para a compreensão das hepatites virais no Brasil, fornecendo dados cruciais para aprimorar as estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento. A jornada para a eliminação dessas doenças até 2030 exige um esforço contínuo e integrado, com foco nas populações mais vulneráveis e na conscientização sobre todas as formas de transmissão.

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