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Professor cego em Ribeirão Preto: a jornada de Fábio Deodato na transformação da educação inclusiva

Fábio Deodato, professor cego, dedica sua vida à educação especial em Ribeirão Preto, capacitando docentes e combatendo o capacitismo.
Professor cego em Ribeirão Preto: a jornada de Fábio Deodato na transformação da educação inclusiva
Foto: Arquivo pessoal

A história de Fábio Deodato, um professor que nasceu cego e dedicou sua vida à educação especial, é um testemunho inspirador de superação e compromisso com a inclusão. Aos 43 anos, Fábio não apenas venceu as barreiras impostas por um sistema educacional muitas vezes despreparado, mas também se tornou um pilar fundamental na formação de educadores em Ribeirão Preto, interior de São Paulo.

Sua trajetória, marcada por desafios desde a infância, culminou em um trabalho de grande impacto: a capacitação de 150 docentes. Esses profissionais, por sua vez, são responsáveis pelo atendimento de aproximadamente 1,9 mil alunos com deficiência na rede municipal, demonstrando como a experiência pessoal pode se converter em uma força motriz para a transformação social.

A Trajetória Pessoal e a Escolha pela Inclusão

Fábio Deodato nasceu em 1983, em São Paulo, com cegueira congênita associada à hipoplasia do nervo óptico. Seus pais, sem referências de pessoas cegas na família, enfrentaram a surpresa e a preocupação iniciais. Aos nove anos, a família mudou-se para Ribeirão Preto, cidade onde Fábio seria, em 2023, reconhecido com o título de cidadão ribeirão-pretano.

Desde cedo, Fábio frequentou escolas regulares, mas a falta de materiais acessíveis e de professores capacitados para lidar com alunos com deficiência era uma constante. Ele recorda que, muitas vezes, sua mãe precisava transcrever tarefas para que os docentes pudessem corrigi-las. Além disso, a desinformação levava alguns educadores a presumir que a cegueira estava atrelada a uma deficiência intelectual, subestimando sua capacidade de aprendizado.

Essa realidade dolorosa, no entanto, não o desmotivou. Pelo contrário, acendeu nele o desejo de mudar o cenário. “Desde muito novo, fiquei pensando no que eu faria para mudar esse contexto. Para libertar a minha mente desse cárcere capacitista que a sociedade já impunha, eu precisava estudar”, relata Fábio. Aos seis anos, em uma gravação para um jornal local, ele já expressava o sonho de ensinar braile, um prenúncio de sua futura vocação.

Transformando a Educação em Ribeirão Preto

Há 17 anos, Fábio Deodato integra a Secretaria de Educação de Ribeirão Preto. Durante 14 desses anos, atuou diretamente em sala de aula com estudantes com deficiência. Atualmente, seu foco está na elaboração de conteúdos e na condução das formações para os professores de Atendimento Educacional Especializado (AEE).

Os encontros de capacitação são realizados de diversas formas: presencialmente, por videochamada e através de módulos disponíveis em uma plataforma online. O AEE, essencial para a educação inclusiva, complementa o ensino regular, oferecendo recursos e estratégias de acessibilidade adaptados às necessidades individuais de cada estudante. Fábio também é responsável por desenvolver materiais e documentos pedagógicos, como planos educacionais individualizados, e realiza visitas às escolas para acompanhar de perto os alunos, especialmente os cegos.

A evolução do atendimento especializado em Ribeirão Preto é notável e reflete o impacto do trabalho de profissionais como Fábio. Em 2009, quando ele ingressou na rede municipal, a cidade contava com apenas duas salas de AEE. Hoje, esse número saltou para quase 40, atendendo a cerca de 1,9 mil alunos com diversas deficiências, incluindo cegos, surdos, pessoas com deficiências físicas ou intelectuais, transtorno do espectro autista (TEA), síndrome de Down, altas habilidades e deficiências múltiplas.

Para desempenhar suas funções, Fábio utiliza tecnologias assistivas, como leitores de tela em computadores e celulares, que convertem informações em áudio. Ele também incorpora ferramentas de inteligência artificial para auxiliar na leitura e descrição de conteúdos, demonstrando como a tecnologia pode ser uma aliada poderosa na promoção da acessibilidade.

Superando Barreiras Acadêmicas e Profissionais

A jornada acadêmica de Fábio foi igualmente desafiadora. Antes de ingressar no ensino superior, ele cursou técnico em administração. No início dos anos 2000, iniciou a faculdade de pedagogia. Naquela época, embora leitores de tela e outros equipamentos acessíveis já existissem, as condições financeiras e a falta de recursos nas instituições de ensino eram obstáculos significativos.

Para acompanhar as aulas e realizar avaliações, Fábio dependia da colaboração de professores e colegas. As provas eram feitas oralmente, em dupla ou em braile. Em uma ocasião, ele chegou a ensinar uma colega a transcrever suas respostas para a escrita convencional, evidenciando sua proatividade e a força da solidariedade. “Naquele momento, o que havia dentro da faculdade era a força de vontade dos professores em fazer a coisa acontecer”, recorda.

A sede por conhecimento e a determinação de Fábio o levaram a concluir, além de pedagogia, outras cinco formações: administração de empresas, educação especial, teologia, educação cristã e gestão pública. Em 2008, foi aprovado em concurso público para a Prefeitura de Ribeirão Preto, assumindo o cargo na Secretaria de Educação no início de 2009, onde permanece até hoje.

O Combate ao Capacitismo e a Visão de Fábio

Apesar dos avanços nas políticas públicas e da ampliação do atendimento especializado, Fábio Deodato enfatiza que o capacitismo – a discriminação e o preconceito contra pessoas com deficiência – ainda é uma das principais barreiras a serem superadas. Ele argumenta que a verdadeira inclusão começa quando a deficiência deixa de ser a característica definidora de uma pessoa.

“Por que pessoa com deficiência? Porque a deficiência vem depois da pessoa. Primeiro é a pessoa, ela tem um nome. Meu nome é Fábio. Eu não sou o ceguinho do bairro. Sou cego, mas a cegueira não me caracteriza no sentido de empoderamento ou inferioridade. A cegueira é um componente do que sou”, declara Fábio, em uma fala que ressoa a importância da dignidade e do respeito individual.

Sua história é um lembrete poderoso de que a capacidade humana transcende qualquer limitação física, e que a dedicação e a empatia são ferramentas essenciais para construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva, onde cada indivíduo possa desenvolver seu potencial máximo.

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