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Assédio e sobrecarga de trabalho levam jornalistas brasileiros à exaustão mental, aponta estudo

Jornalistas brasileiros enfrentam sérios riscos à saúde mental devido a assédio e sobrecarga de trabalho, revela pesquisa da Fundacentro e Fenaj.
Assédio e sobrecarga de trabalho levam jornalistas brasileiros à exaustão mental, aponta estudo

Um cenário alarmante para a saúde dos profissionais de imprensa no Brasil foi recentemente revelado por uma pesquisa abrangente. As condições e características inerentes ao trabalho jornalístico, somadas ao assédio constante e à insuficiência de apoio social, expõem jornalistas a uma série de potenciais problemas de saúde mental, impactando não apenas seu bem-estar individual, mas a própria qualidade da informação que chega à sociedade.

O estudo, intitulado Condições de Trabalho e Saúde Mental de Jornalistas no Brasil, foi conduzido pela Fundação Centro Nacional de Segurança, Higiene e Medicina do Trabalho (Fundacentro) com o apoio crucial da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Seus achados sublinham a urgência de uma ação coordenada por parte de empregadores, entidades de classe e formuladores de políticas públicas para criar um ambiente de trabalho mais seguro, justo e saudável para a categoria.

O Cenário Alarmante da Saúde Mental na Imprensa

Os dados coletados junto a 257 jornalistas brasileiros, recrutados por meio de um questionário online, pintam um quadro preocupante. Quase metade dos entrevistados, 48%, relatou sofrer com sintomas de insônia. Este percentual é significativamente superior à média nacional, que varia entre 28,7% e 38%, conforme o relatório Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel Brasil) do Ministério da Saúde.

Além da insônia, outros indicadores de saúde mental são igualmente preocupantes. 36% dos jornalistas entrevistados afirmaram ter experimentado episódios típicos de um quadro de ansiedade. A depressão afeta metade dos participantes (50%), sendo que 9% descreveram sintomas de depressão severa e 16%, extremamente severa. O uso de álcool também se destaca: 21,5% dos respondentes indicaram padrões de consumo que sugerem uso de risco (18,7%) ou nocivo (1,6%), com 1,2% apontando para uma provável dependência.

A Prevalência do Assédio e da Violência Digital

Como se não bastassem as pressões inerentes à profissão, os jornalistas são frequentemente alvos de diversas formas de assédio, com destaque para o assédio moral. Pelo menos 26% dos profissionais de imprensa reportaram ter sido vítimas de assédio moral no ambiente de trabalho, um percentual que pode chegar a 37% dependendo dos critérios de pesquisa aplicados. A violência psicossocial se estende ao ambiente digital, com 30% dos entrevistados relatando ter sofrido cyberbullying.

Bruna Balarotti e Elaine Cristina Marqueze, pesquisadoras responsáveis pelo estudo, apresentaram esses dados durante uma reunião do Conselho de Comunicação Social (CCS) do Congresso Nacional. Elas enfatizam que o dinamismo e o estresse são características intrínsecas ao jornalismo que expõem os profissionais a riscos psicossociais. “A prevalência de assédio moral no trabalho, variando de 26% a 37%, e de cyberbullying (30%), representam um dos achados mais críticos deste estudo”, afirmam as autoras. “Esses percentuais elevados indicam que uma parcela substancial dos jornalistas brasileiros está exposta a formas de violência psicossocial, tanto no ambiente físico quanto no digital.”

Condições de Trabalho e o Apoio Social Insuficiente

Um fator agravante para a saúde mental dos jornalistas é a percepção de baixo apoio social, relatada por 61% dos entrevistados. Este conceito abrange os níveis de interação social no trabalho, tanto com colegas quanto com superiores. Segundo Balarotti e Marqueze, a combinação de altas demandas, baixo controle sobre as atividades e o apoio social insuficiente pode gerar ou agravar consequências negativas à saúde. Essa realidade, talvez, ajude a explicar por que o quesito satisfação no trabalho ficou ligeiramente abaixo da média.

A presidenta da Fenaj, Samira de Castro Cunha, corrobora a análise das pesquisadoras, destacando que as consequências das condições de trabalho dos profissionais de imprensa transcendem a própria categoria. “Os dados evidenciam um cenário preocupante, marcado por altas taxas de estresse, ansiedade, depressão, insônia, assédio moral e violência digital. Além disso, revelam um ambiente de trabalho caracterizado por altas demandas, baixo controle sobre as atividades e insuficiente apoio social”, disse Samira. “Esses elementos não apenas afetam a saúde dos profissionais, mas também impactam a qualidade da informação produzida e, consequentemente, o próprio direito da sociedade à informação.”

Impactos na Qualidade da Informação e na Democracia

A saúde mental dos jornalistas não é apenas uma questão individual ou corporativa; ela tem profundas implicações para o funcionamento das instituições democráticas. Profissionais exaustos, ansiosos ou deprimidos, submetidos a assédio e sem apoio, podem ter sua capacidade de apuração, análise crítica e produção de conteúdo de qualidade comprometida. Isso, por sua vez, afeta diretamente a capacidade da sociedade de se informar de maneira plena e contextualizada, essencial para a tomada de decisões e para a participação cidadã.

A pesquisa da Fundacentro e Fenaj serve como um alerta contundente para a necessidade de repensar as estruturas e práticas do jornalismo brasileiro. Promover um ambiente de trabalho que valorize o bem-estar dos profissionais é um investimento não só na saúde individual, mas na robustez da imprensa e, por extensão, na vitalidade da democracia.

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