O cenário das apostas online, popularmente conhecidas como “bets”, tem se transformado rapidamente no Brasil, com um avanço preocupante entre a população jovem. O que antes era uma atividade restrita a ambientes físicos, hoje se encontra na palma da mão, acessível a qualquer momento e em qualquer lugar via smartphones. Essa facilidade, contudo, tem um lado sombrio: o aumento exponencial dos casos de dependência, que afeta adolescentes e jovens adultos, levando a sérios problemas financeiros e de saúde mental. Grupos de apoio, como a irmandade Jogadores Anônimos, relatam um fluxo crescente de pessoas, inclusive menores de idade, buscando ajuda para superar o vício.
O Alerta dos Grupos de Apoio e a Vulnerabilidade Juvenil
Luiz Carlos*, um membro experiente da irmandade Jogadores Anônimos, observa com preocupação a mudança no perfil dos indivíduos que buscam auxílio. Segundo ele, a idade dos novos integrantes tem diminuído drasticamente. “Hoje quem chega à irmandade é muito jovem. Já chegou até de 14 anos acompanhado pelo psiquiatra. Mas chegam jovens de 15, 16, 19, 20 anos, até 30, 35 anos“, relata. Essa tendência sublinha a urgência de debater o tema e buscar soluções eficazes para proteger as novas gerações.
A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que a vulnerabilidade dos jovens se deve à fase de desenvolvimento cerebral. O núcleo responsável pelo prazer e pela dopamina funciona intensamente, enquanto as áreas de controle de impulsos e avaliação de riscos só amadurecem completamente por volta dos 20 e poucos anos. “O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte”, esclarece Kehl.
Histórias Reais: O Impacto Devastador do Vício em Apostas
A realidade de Gustavo Pereira, de 24 anos, é um testemunho vívido dos perigos da compulsão por apostas. Ele começou a apostar online aos 18 anos e, em seis anos, chegou a perder cerca de meio milhão de reais. Gustavo relata a perda da dimensão do dinheiro, um sintoma comum do vício. “Ganhava muito bem na época, já fiz R$ 10 mil virarem R$ 300 mil, já fiz bancas inimagináveis, fiz R$ 10 mil virarem R$ 200 mil, R$ 240 mil, e perdi tudo. Então o dinheiro começou a perder valor para mim, eu comecei a perder a dimensão do dinheiro”, conta o jovem.
Além das perdas financeiras, Gustavo enfrentou depressão e síndrome do pânico. Atualmente, ele está há cerca de dois meses em abstinência e tenta reconstruir sua vida vendendo café nas ruas de Lages, Santa Catarina. Ele compartilha sua jornada e busca ajudar outras pessoas através de um perfil no Instagram, transformando sua experiência em um propósito de vida.
O “Cassino no Bolso” e os Números Preocupantes
A facilidade de acesso às plataformas de apostas pelo celular é um fator crucial para a disseminação do vício. Luiz Carlos, que começou a jogar na década de 1980 com máquinas de videopôquer, compara a situação atual: “Na minha época, a gente tinha que sair de casa para jogar. Hoje não precisa mais, você carrega um cassino dentro do seu bolso”. Essa acessibilidade irrestrita amplifica a exposição, especialmente de crianças e adolescentes.
Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) de 2021 revelam que uma em cada cinco pessoas no mundo começa a apostar em jogos online até os 11 anos de idade, e esse número salta para 78% a partir dos 12 anos. No Brasil, uma pesquisa de 2026, divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educação, com 1.912 estudantes do ensino médio e fundamental, indicou que 9,5% fizeram a primeira aposta aos 11 anos, e quase metade dos alunos do 3º ano do ensino médio já haviam apostado.
Um relatório do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) de 2024 aponta que pelo menos 24 milhões de brasileiros apostaram em bets, com quase metade deles ficando endividada. O IBICT também identificou que canais infantis exploram a imaturidade financeira para promover apostas ilegais.
O Caminho da Recuperação e o Apoio dos Jogadores Anônimos
A irmandade Jogadores Anônimos tem sido um porto seguro para muitos que buscam se libertar da compulsão. Luiz Carlos, com 15 anos de abstinência, é um exemplo de superação. Outros membros, como Rogério* (53 anos), Rodrigo* (47) e Carla Xavier* (41), também encontraram no grupo o suporte necessário. Carla, que está há mais de um ano sem apostar, destaca que o grupo recebe pessoas em situações extremas, que já perderam tudo e estão à beira do desespero, muitas vezes com pensamentos suicidas.
“Essas são as pessoas que procuram o grupo. E, com as apostas online, isso cresceu demais, porque está tudo na palma da mão hoje”, afirma. A recuperação é um processo contínuo, que exige apoio e determinação, e a irmandade oferece um espaço de acolhimento e partilha de experiências para enfrentar o vício.
A crescente dependência de apostas online entre jovens é um desafio complexo que exige atenção e debate contínuos. Para se manter informado sobre este e outros temas relevantes que impactam a vida em nossa comunidade e no país, continue acompanhando o Portal Bairro do Ipiranga SP. Nosso compromisso é trazer informação de qualidade, contextualizada e aprofundada, para que você esteja sempre bem-informado sobre os assuntos que realmente importam.

