A comunidade global testemunha uma retração sem precedentes no apoio financeiro destinado a países em desenvolvimento. O volume de ajuda internacional concedido por nações ricas a países de baixa renda e instituições multilaterais sofreu um corte drástico de 23,1% na transição de 2024 para 2025. Esta é a maior redução já registrada na história, sinalizando um momento crítico para o financiamento do desenvolvimento global.
No ano passado, o auxílio total dos países ricos atingiu US$ 174,3 bilhões, o que representa uma diminuição de US$ 52,4 bilhões em apenas um ano, quando ajustado pela inflação. Este é o segundo ano consecutivo de declínio na ajuda internacional, um cenário que preocupa especialistas e organizações humanitárias em todo o mundo. As projeções para 2026 indicam uma nova queda de 6,9%, o que levaria o patamar de ajuda a níveis semelhantes aos de 2014, configurando um terceiro ano consecutivo de recuo.
Uma Retração Sem Precedentes no Apoio Global
Os dados alarmantes são parte do estudo Financiamento para o Desenvolvimento, uma análise aprofundada elaborada pelo Brics Policy Center, centro de estudos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Os pesquisadores Isabel Rocha de Siqueira, Enzo Cosenza e Luis Ehl basearam suas conclusões em informações do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (CAD), um grupo de países doadores associado à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), conhecido como o “clube dos países ricos”, do qual o Brasil não faz parte.
A ajuda em questão é a chamada Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD), que consiste em recursos públicos fornecidos por governos com o objetivo explícito de promover o desenvolvimento econômico e a prosperidade em outras nações. Essa assistência pode ser bilateral, quando enviada diretamente a um país receptor, ou multilateral, quando os recursos são direcionados a instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU) ou o Banco Mundial, que gerenciam seus próprios programas de desenvolvimento.
Os Gigantes da Economia e a Redefinição de Prioridades
A análise do estudo revela que, embora o CAD seja composto por 33 países e a União Europeia (UE), a maior parte da redução entre 2024 e 2025 (95,7%) é atribuída aos cinco maiores doadores: França, Alemanha, Japão, Reino Unido e Estados Unidos. Os EUA, em particular, foram responsáveis por um corte de mais da metade (56,9%) de sua ajuda internacional, contribuindo com 75,1% da diminuição total. Este período também marcou a primeira vez em que todos os grandes doadores reduziram o volume de doações por dois anos consecutivos, com a Alemanha registrando -17,4%, a França -10,9%, o Reino Unido -10,8% e o Japão -5,6%.
Essa significativa redução na ajuda americana coincide com o início de um novo mandato de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, conhecido por sua postura cética em relação ao multilateralismo e ao engajamento em organizações internacionais. Outro fator apontado para a diminuição é o redirecionamento de recursos para outras áreas estratégicas, como segurança energética e defesa. Os gastos com defesa nos EUA, por exemplo, subiram de US$ 822,8 bilhões em 2024 para US$ 845,3 bilhões em 2025. Na União Europeia, o aumento foi de 11%, alcançando 381 bilhões de euros. O investimento total em energia na UE quase dobrou, passando de US$ 215 bilhões em 2015 para cerca de US$ 420 bilhões em 2025, impulsionado pelo choque de segurança energética após o início da Guerra da Ucrânia em fevereiro de 2022.
Os pesquisadores identificam uma “retração seletiva” da ajuda internacional, onde não há uma queda uniforme nos canais multilaterais. Enquanto o financiamento para o sistema da ONU caiu 27%, o maior já registrado, o apoio ao Banco Mundial aumentou 6,4% e aos bancos regionais de desenvolvimento, 11,9%. Isso sugere que os governos doadores estão reavaliando quais tipos de engajamento multilateral consideram estratégicos e dignos de serem mantidos.
Ucrânia: Prioridade Estratégica em Meio à Crise Humanitária
Em contraste com a queda global na ajuda internacional, a Ucrânia emergiu como uma prioridade estratégica para os países europeus, apesar de estar em seu quinto ano de guerra com a Rússia. Mesmo com uma redução de 91% na ajuda dos EUA ao país, a Ucrânia se tornou o maior recebedor individual de AOD na história, com R$ 44,9 bilhões. Esse montante foi compensado pelo incremento de assistência financeira de 23 países e instituições da UE, que aumentaram seus envios em 65,2%. O volume recebido pela Ucrânia supera os US$ 28,1 bilhões destinados aos 44 países classificados pela ONU como Países Menos Desenvolvidos (PMD), evidenciando uma clara priorização estratégica.
Impactos Humanitários e o Futuro do Desenvolvimento
Os cortes na ajuda internacional têm consequências diretas e severas, especialmente para as populações mais vulneráveis. Citando dados da Oxfam, uma organização internacional dedicada ao combate à pobreza, o estudo projeta que as reduções na ajuda externa em 2025 podem ser responsáveis por 695.238 mortes em excesso. Se a tendência de cortes persistir, esse número pode chegar a 9.416.417 mortes até 2030.
A região mais afetada por essa retração é a África Subsaariana, que viu seus recursos diminuírem em 23% em 2025, chegando a US$ 29,2 bilhões. Para 2026, a projeção é de uma nova redução de 11,6%, o que significaria US$ 11,8 bilhões a menos para essas nações. É importante notar que 32 dos 49 países da África Subsaariana também fazem parte do grupo dos Países Menos Desenvolvidos, tornando-os duplamente vulneráveis.
O cenário de insuficiência de recursos é ainda mais evidente quando se compara com as necessidades globais. Durante a 30ª Conferência da ONU sobre Mudança do Clima (COP30), realizada em novembro passado em Belém, discutiu-se a necessidade de mobilizar US$ 1,3 trilhão para o financiamento climático, um valor que, segundo o consenso, é “praticamente inalcançável” diante da atual conjuntura de cortes. Diante desse diagnóstico, o levantamento do Brics Policy Center sugere caminhos para minimizar os impactos, como direcionar recursos escassos para os países mais pobres, planejar saídas de financiamento de forma responsável e coordenada, e tornar a ajuda mais eficaz e geradora de impacto real para o desenvolvimento.
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