A frase carregada de dor revela de forma extrema os impactos de diferentes tipos de violência sofridos por mais de uma década. Aos 41 anos, em tratamento de esquizofrenia e em sua quarta passagem por um abrigo municipal, uma das vítimas carrega no olhar as marcas de histórias que incluem agressões físicas sofridas inclusive durante a gravidez, abusos sexuais, violência psicológica, ameaças e exploração financeira.
A história relatada é uma entre centenas registradas pelo Sistema de Notificação de Violências de Campinas (Sisnov). Segundo especialistas, transtornos mentais que provoquem impedimentos duradouros e comprometam a autonomia podem integrar esse universo de vulnerabilidade. Em dados divulgados pela pasta estadual, apenas no primeiro semestre de 2026, uma em cada cinco notificações de violência contra mulheres registradas no sistema envolveu vítimas com algum tipo de deficiência.
Desafios adicionais e barreiras de acesso à justiça
Pesquisadoras da área de direitos humanos apontam que os números estatísticos não retratam toda a dimensão do problema e que ainda existe uma forte subnotificação. A condição de deficiência pode ampliar os obstáculos na tentativa de romper ciclos de violência, já que em muitos casos a mulher depende do próprio agressor para se locomover, acessar serviços de saúde, utilizar a internet ou manter tratamentos médicos.
Especialistas em segurança pública e ciências sociais avaliam que as dificuldades estruturais ajudam a explicar a ausência de registros oficiais. Muitas delegacias e órgãos de proteção ainda carecem de intérpretes de Libras, sistemas em braile ou de uma acessibilidade física adequada para receber denúncias de forma autônoma e segura.
Formas invisíveis de controle e agressão
Além das agressões físicas evidentes, mulheres com deficiência ou transtornos que exigem acompanhamento contínuo frequentemente enfrentam formas específicas de violência que passam despercebidas. Entre as condutas relatadas estão a interrupção proposital de tratamentos, a retenção de medicamentos e o controle rigoroso sobre o acesso a consultas médicas.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo reforça que práticas como a retenção de cadeiras de rodas, aparelhos auditivos e remédios, bem como o impedimento de acesso a tratamentos, configuram violência doméstica e fundamentam a solicitação imediata de medidas protetivas de urgência.
Cadeia de atendimento e rede de apoio
Para enfrentar esse cenário, municípios contam com serviços especializados de apoio e acolhimento voltados às vítimas de violência de gênero. Unidades como a Casa Abrigo da Mulher Sara-M oferecem proteção sigilosa, enquanto centros de referência prestam atendimento social, psicológico e orientação jurídica.
Especialistas ressaltam que unidades básicas de saúde e postos comunitários também desempenham papel estratégico na identificação precoce de casos de violência, funcionando como portas de entrada mais acessíveis para o suporte a essas mulheres.
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